Filipe Faísca | “Um designer é um mágico que traduz as emoções em cor, textura, forma e tecido”

Filipe Faísca

Um homem multifacetado. Assim é Filipe Faísca, um dos nomes maiores da moda em Portugal e dono de uma criatividade singular que se expressa nas passerelles, nas roupas que desenha para cinema e televisão ou nas vitrines que concebe para a Hermès ou Fashion Clinic. Em tudo o que faz tem um denominador comum: comunicar. O seu trabalho é admirado e respeitado, e na ModaLisboa é sempre um dos desfiles mais aguardados, onde não faltam os aplausos quando apresenta as suas coleções. Por esta altura já está a trabalhar na coleção para a primavera-verão de 2015, mas guarda os detalhes para si. À SP Mag o criador falou sem rodeios sobre a profissão, o empenho que lhe dedica e as suas inspirações.

SP Mag – Uma elegância irreverente. Esta é a melhor forma de descrever o seu estilo enquanto designer? Como o definiria?

Sim, aceito a sua forma de identificar o meu trabalho. Elegância pela preocupação em corrigir proporções e escolher os materiais mais próximos da sensibilidade das clientes, não condicionar os gestos, mas sublinha-los. Irreverente pela provocação naif de uma criança que brinca com os códigos, que os baralha e no fim escolhe de “olhos bem fechados”.

Considera-se um perfecionista. E workaholic, também é? De que maneira isso condiciona a sua vida?

A uma dada altura dei-me conta que 95 por cento da minha vida era trabalho, não sei se é perfecionismo ou ser workaholic, mas, como deve saber, esta profissão exige imenso dos designers. É de facto transversal e deixa pouco tempo para a vida privada, a qual não foi cuidada com a atenção necessária. No amor, na autoestima, na relação com os outros, etc.

Quando alguma coisa não corre como tinha idealizado também faz “faísca”?

Muito menos do que antigamente. Aceito muito mais o erro.

É considerado uma referência na moda em Portugal. Como olha para o seu percurso e para o que já conquistou?

É uma gota de água no Oceano. O facto de ser notícia de primeira página no jornal é completamente inconsequente.

A atriz Maria João Bastos, de quem é grande amigo, costuma vestir peças suas em eventos internacionais, como no Festival de Cannes. Já se verificam reflexos para a sua marca dessa exposição mediática além-fronteiras?

Sim. Pouco a pouco vou criando um público no estrangeiro.

Há muitos estrangeiros que procuram o seu atelier, no Chiado? O que compram quando comparado com os clientes portugueses?

A compra direta na loja é, sem dúvida, hoje feita na maioria por estrangeiros, que adoram o design das peças. Estão sobretudo atentos aos acabamentos.

Planeia expandir a marca? De que maneira e para que mercados?

Só através de vendas online, com um site, por exemplo. O mercado seria para o europeu, na sua maioria.

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Nasceu em África, mais concretamente em Moçambique. As suas origens têm influência na forma como cria?

Absolutamente, assim como na forma como penso e sinto. O resto vem por acréscimo.

Onde vai buscar a sua inspiração?

À vida, através das artes, pintura, fotografia, cinema, música e dança no passado.

O que significa para si ser designer de moda?

É um mágico que traduz as emoções em cor, textura, forma e tecido.

Que tipo de mulher veste Filipe Faísca?

Tem entre os 25 e os 80 anos, uma mulher com cultura visual, tem um olho clínico, tem noção das proporções, adora vestir-se, adora seduzir, é subtil e consciente do seu poder quando acrescido de um guarda-roupa eficiente.

O homem tem tido de vez em quando espaço nas suas coleções. Quem é o homem Filipe Faísca?

Como aparece também desaparece. É assim o homem português: tímido, ausente, não se assume, é omisso e joga pelo seguro. O meu é companheiro da mulher, assume o lado feminino sexy secreto de forma não óbvia.

O homem português tem estilo?

Já teve nos anos 20 e 50, agora não. É cinzento, difícil de definir.

É também vitrinista. Concebe as montras da Hermès, em Portugal, e da Fashion Clinic. De que forma este trabalho se complementa com o seu trabalho principal?

É maravilhoso o ato de pôr em cena objetos, pô-los a comunicar com público e a interagir entre eles.

Também tem-se dedicado à criação de guarda-roupa para cinema, teatro e outras produções artísticas. Para expressar a sua criatividade necessita de percorrer diferentes áreas?

Na verdade não sou uma pessoa de uma tarefa só, o denominador comum de tudo o que faço é comunicar. No cinema e teatro o exercício é o mesmo: pôr em cena.

Por esta altura está a trabalhar na sua nova coleção para o verão 2015. O que podemos esperar?

O inesperável. Desculpe, mas este não é ainda o momento para levantar o véu.

 

Fotos: Instagram

 

 

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